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«Mata-Borrão» é o nome que damos ao conjunto de acções que têm lugar na Tinta nos Nervos entre ou durante as exposições de longa duração. O «Mata-Borrão» absorve o tempo e interfere no espaço. Paralelamente ao calendário das inaugurações e exposições de longa duração, a Tinta nos Nervos abre espaço a mostras de curta duração, intervenções pontuais associadas a eventos diversos, como lançamentos ou encontros na livraria, efemérides ou celebrações.
Em Agosto apresentamos um Mata-Borrão:  
De 8 a 20 de Setembro


MATA-BORRÃO:  Paulo ROBALO  SUMO XIII segundos

Desenhos

Exposição da série de 8 desenhos que marcou o início de um ciclo de trabalhos dedicado à luta Sumo (2007) num projecto de pintura que levou o artista ao Japão e se estendeu por três anos. Nela, resgatam-se situações de enfrentamento, as posturas dos jogadores e pormenores, que revelam a aparente contradição de um combate relâmpago e a densidade física dos corpos que o executam.

"Sobre um tronco de pirâmide de base quadrada em adobe (doyho), implantado de acordo com as orientações dos pontos cardeais, dois lutadores (Rikishi) com olhares fixos e gestos contidos, tentam afastar o seu forte oponente de um círculo com 450 cm de diâmetro. Momentos antes sob um tecto de evocação xintoísta, em jeito de cerimónia lançaram sal purificador de almas e gargarejaram com água. No ar desenharam códigos de honra com movimentos coreografados. Estes Deuses semi-nus, com penteados fixados em óleo de camomila (ô--icho) , suspensos pelos seus volumosos semblantes de 180 kg movem-se por intermédio de setenta posições com agilidade e precisão. O árbitro (gyogi) ao leme, envolto no seu airoso kimono colorido e o público expectante aguardam o desfecho de mais um confronto que poderá classificar o Rikishi na mais alta posição do ranking - o Yokusuna.

O observador atento, pintor de outra cultura, com redobrada sedução procura num processo de pesquisa e experimentação formal registar estes momentos. Em suportes de dimensões variadas, utiliza técnicas de pintura que lembram usos culinários. O ingrediente de eleição é a cera de abelha, fundida a quente com pigmentos naturais de fortes contrastes cromáticos. O desenho, sempre presente, baliza a composição sobrepondo-se a um fundo fértil de matérias; as resinas, a goma laca, o pó de pedra, completando esta dieta os betumes judaicos.

Partindo sempre de um outro olhar, com sofreguidão, procura nesta manifestação de uma cultura ancestral traduções que lhe sejam familiares e que o remetem para espaços que inevitavelmente identifica -  o espaço de representação cénica e a instalação. É nesta busca quase obsessiva de representação do rigor de gestos contidos mas dinâmicos que o pintor procura outros olhares com quem possa partilhar a nobreza de um acto que dura em média cerca de 13 segundos e que simultaneamente se desenrola num tempo poético manifestamente mais lato " (Paulo Robalo)